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domingo, fevereiro 03, 2013

A saída de Cabo Verde da CAN




Não pode senão ser motivo de desgosto a saída de Cabo Verde da CAN. Estavamos (refiro-me assim ao país da Morabeza não apenas por ser um PALOP, mas porque tenho com o mesmo relações profissionais e afectivas, que fazem me sinta já um bocadinho cabo-verdiano...) a fazer uma competição tão bonita que neste momento já nos era permitido sonhar com tudo...!

Por isso uso a palavra desgosto e não pena. Um sentimento, uma mágoa, de quem estima os seus, tem orgulho no seu trabalho, gostaria que gozassem mais alegrias,cujo resultado não corresponde ao que poderia ter sido, com um pouco mais de sorte e um golpe de génio...Mas enfim fica o principal: as alegrias vividas, o orgulho de um povo e uma nova fase para o futebol de Cabo Verde...!

sábado, agosto 04, 2012

Invictus: que filme e que Homem!



Imperdoávelmente nunca tinha visto o filme Invictus...mas é este o encanto das férias: inesperadamente o tempo livre oferece-nos estes mimos...
Que filme e que Homem (Nelson Mandela)! Que história! Como seria diferente o mundo (e África...) se o Perdão e a unidade do género humano fossem os valores predominantes...se Jesus fosse levado a sério...vendo-o percebe-se melhor como são desejáveis as palavras do Pai Nosso:
"Santificado seja o Vosso nome
Venha a nós o Vosso reino
Seja feita a Vossa vontade
Assim na terra como nos Céus"
Sim, sei bem, de todas as coisas más que aconteceram com a tomada do poder pelo ANC (o que seria dificil não acontecer num país que vem do apartheid...), da diferença, que cresceu no tempo, entre este partido e Mandela, e também, inevitávelmente, como este último não será, como quase nenhum de nós, um Santo, mas que se reconhece nele uma grandeza, sensibilidade, desígnio e humanidade, ímpares, isso é um facto inegável. E, tudo somado, é muito diferente a realidade da África do Sul, em relação aos seus vizinhos e à totalidade do continente...
Recomendo vivamente e hoje vou a uma livraria comprar uma biografia do homem ;-)

quarta-feira, abril 04, 2012

Retornados: uma história impressionante

Apesar de ter 12 anos na altura dei muito pelo que então se passou no país. Recordo-me de ter chorado quando em 27 de Julho ouvi o discurso de abandono do Ultramar de Spínola e em 1975 ler a imprensa de extrema-esquerda, em especial, o "Luta Popular" do MRPP. Recordo-me também logo em 1974 do MAEESL (movimento associativo dos estudantes do ensino secundário de lisboa) e das manifestações a que então íamos (pacificos e burgueses alunos do São João de Brito). Acho que o meu primeiro artigo político foi uma defesa das guerrilhas de esquerda na América-latina (num jornal policopiado editado no Colégio e sintomaticamente chamado "O Burro"...) mas ao mesmo tempo a primeira colagem de cartazes em que participei foi do então PPD com partida de uma sede na João XXI e a companhia de Paulo Portas (fomos colegas e contemporâneos no colégio). Ainda no mesmo colégio levei uma vez um jornal do MES que acabou queimado por alguns colegas de turma. Por 1976 creio já distribua propaganda do CDS pelo Porto. Enfim, memórias da revolução e da iniciação política...

Mas no meio disso tudo, dou-me agora conta, passou-me ao lado a história e o drama dos retornados. Não me recordo de ter tido nenhum da minha idade como amigo e a aproximação à ideia do Ultramar português chegou-me pelas leituras e pelo convivio a partir de 1978 com antigos combatentes, pretos e brancos, nas actividades (anti-comunistas, nacional-revolucionárias) em que participava. Agora homem feito e sobretudo pai de família dou-me conta de que drama humano, familiar, não foi e a que tragédia uma quantidade razoável de portugueses (na maioria brancos), entre meio e um milhão, foi submetida...!






Vem isto a propósito de uma visita a este Blog de memorabilia da grande migração de portugueses do Ultramar e das fotografias impressionantes que fui vendo. Imaginando-me no meio daquilo: bens perdidos, sem emprego, a olhar a família sem nada, ali dependente de mim, carecida da caridade da familia que cá tivesse (e se...), com o futuro por diante como uma grande incógnita...que drama!

E depois, não excluindo as canalhices e misérias humanas, que história grande de esforço e devoção, de refazer a vida e contribuir para o desenvolvimento de um país que tão mal os tratou (e no qual metade deles, no continente, nunca tinha estado...), de laços de amizade e sangue...! Uma história que valeria sempre a pena ler: em homenagem a quem a viveu, para nossa educação e até hoje em dia, nas actuais circunstâncias, como roteiro de como se vence uma crise verdadeira...!

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Obama: artigo genial do Mia Couto

O grande Mia Couto escrevinhou-se genialmente (como ele diria) neste artigo sobre Obama. Não sei onde foi publicado porque o email em que ele me chegou não o dizia. Se alguém souber diga-me por favor.

E se Obama fosse africano?
Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles.Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada,as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor.Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-lhe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-lhe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos.Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um"não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas -tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos -as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 deNovembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.