segunda-feira, março 14, 2005

"Million Dollar Baby" e a Eutanásia (do Pedro Afonso)

O meu amigo Pedro Afonso, sobre o assunto em referência, escreveu este artigo que eu subscrevo!:

«O Filme Million Dollar Baby e a Eutanásia»


Vi recentemente o filme de Clint Eastwood «Million Dollar Baby» galardoado com quatro Óscares de Hollywood. Independentemente da qualidade da obra, o seu argumento aborda o tema da eutanásia de uma forma que me parece digna de reflexão.

A eutanásia ou, em sentido lato, o suicídio-assistido, apresenta-se neste filme como um acto de misericórdia e de compaixão perante o sofrimento de uma doente vítima de uma doença grave e incurável (eutanásia piedosa).

Um dos argumentos mais usados em defesa da eutanásia corresponde: «ao sofrimento da pessoa». O sofrimento é muitas vezes visto como algo indigno, desumano, motivo de vergonha e que por isso deve ser banido a qualquer preço! Neste contexto, a eutanásia passa ser a interpretada como um gesto de misericórdia. Esta «piedade hipócrita» esconde, por vezes, um sentimento egoísta e injusto, já que considera que os mais fracos, as vítimas do infortúnio e aqueles que simplesmente envelhecem já não têm lugar nesta sociedade. Ou seja, no caso de surgirem ideias de suicídio nestes indivíduos não se procura demovê-los, nem auxiliá-los. Nestas situações prevalece um espírito de condescendência e compreensão, já que o sofrimento e desespero em que se encontram conduzem automaticamente a um estatuto de «suicidas justificados».

Então, mas não serão também estes os motivos (sofrimento e desespero) que levam a maioria dos indivíduos a cometerem o suicídio?

Actualmente, temos um exemplo extraordinário de resistência e de coragem face ao sofrimento: «O Papa João Paulo II». Estou convicto que, a sua atitude de entrega, generosidade, determinação e abnegação, servirá de alento e de esperança para muitos doentes que se encontram numa situação idêntica de incapacidade e sofrimento. Esta é sem dúvida uma postura que vai contra a corrente actual, de que a vida só merece ser vivida enquanto existir juventude, beleza e saúde.

É interessante observar que, é quase consensual que o suicídio não deve ser encorajado e que se deve proteger o indivíduo de causar a morte a si próprio. E, por que é que não existe consenso à volta da eutanásia? Desde Robbins (1959) que se verificou que cerca de 94% das pessoas que se suicidam apresentavam alterações psicopatológicas. Deste modo, estariam privadas da capacidade necessária (em termos mentais) para avaliar em consciência e em liberdade, a decisão de se suicidarem. Sabemos ainda que subsistem várias doenças mentais tratáveis – como é o caso da depressão – por detrás do desejo de morrer. Desta forma, a existência de um «suicídio racional» é algo controverso. Curiosamente, a história dá-nos um exemplo extraordinário a este respeito. Durante a segunda guerra mundial, a esmagadora maioria dos prisioneiros dos campos de concentração, mesmo sendo submetidos a um sofrimento atroz e às mais diversas torturas raramente se suicidavam.

Para a personagem do filme Maggie Fitzgerald (Hilary Swank) só valeu a pena lutar pela vida – suportar o sofrimento e todos os sacrifícios – enquanto teve oportunidade de sucesso, protagonismo, reconhecimento público e riqueza. Infelizmente, ao desistir de viver acabou por desperdiçar a sua maior vitória: a conquista do amor puro, genuíno e verdadeiro de Frankie Dunn (Clint Eastwood).

Por isso, neste filme, a eutanásia não é uma prova de amor, mas antes a sua recusa!


Pedro Afonso

6 comentários:

Anónimo disse...

Por amor de Deus, porque é que vos faz tanta confusão e tanta mossa a ideia de que alguém, que vocês não conhecem de parte nenhuma, se queira suicidar?? Será que cada um não tem o direito de escolher? De saber se a sua vida faz ou não sentido? Se a quer viver ou não? Se o Papa João Paulo II decidiu que este é o seu destino e que quer lutar pela sua vida, tudo muito bem! Mas como dizer a um jovem, que sofre um acidente e fica tetraplégico numa cama de hospital, que ele ñão pode morrer? Será que a pessoa não pode escolher aquilo que quer? Sejamos pragmáticos: acontecem suicídios todos os dias. São pessoas que decidem terminar com a sua vida e que o consegue fazer.Porque não legislar para que alguém que não o consiga fazer pelos seus meios, possa ser assistido?
Não se esqueçam que, para quem "mora" num hospital, a vida não se resume a circunstâncias sociais, nem a férias no norte. Sejamos realistas e deixemos estas pretenções que são muito bonitas na teoria, mas que na prática não valem um tusto!

lurdes disse...

O que está aqui em causa é o direito que assiste a toda a humanidade a uma vida com dignidade e a uma morte igualmente digna... Lembram-se do caso daquela senhora inglesa que recorreu ao Tribunal Europeu dos Dureitos do Homem? Não teria sido melhor para ela e para a família ter morrido sem dor e sofrimento que acabar por ter uma morte como a que teve?!
Francamente, eu se por qualquer razão ficasse totalmente dependente de alguém, sem me conseguir mexer pelos meus meios... preferia morrer... É uma questão da consciência individual de cada um.

Anónimo disse...

A eutanásia não é uma questão de liberdade individual, uma vez que obriga à participação de uma terceira pessoa, que acaba por causar um «homicídio a pedido!»

Por outro lado, há pedidos que não que não se pode invocar o direito (ou a consciência individual)! Por exemplo: eu poderia evocar a liberdade individual para establecer um contrato de escravatura! Teria o direito de o fazer, mesmo que invocasse o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem? Não creio...

Anónimo disse...

Boa! Estou de acordo! Haja respeito pela vida humana e mersericordia por todos os que estão doentes.

Anónimo disse...

Esta artigo vem na linha do discurso do nosso Cardeal Patriarca neste Páscoa. A vida quer no seu início quer no seu término é inviolável! Vejam o que está a acontecer nos EUA com aquela mulher que suspenderam a alimentação! Uma indignidade...Nem aos animais!!!!

Anónimo disse...

Um Papa Alemão - A tentativa de impedir o Naufrágio da Europa?



Nada envejável a nova missão que Razinger assume na qualidade de papa Bento XVI. Contra ele, os clássicos inimigos no sistemático ataque à religião e em especial à Igreja Católica, e o ressentimento daqueles que ainda identificam os alemães com o nazismo, não esquecendo a crítica construtiva de empenhados no aggiornamento.



A favor duma Europa comm Alma

Numa época em que cada vez mais se propaga a construcção duma EU à margem e contra o Cristianismo, Roma talvez queira, com Bento XVI, acordar a Europa para a sua missão e para os valores que lhe deram o ser e a primazia no mundo.

De facto, há uma elite militante anti-cristã/ anti-ocidente que cada vez mais ocupa, na Europa, os lugares estratégicos da política, das universidades e dos media. Danificados da Geração de 68, desiludidos marxistas e militantes do racionalismo modernista ditam o discurso público e a subsequente ditadura relativista com a consequente banalização da vida e dos padrões morais nivelados a um plano de base primitivo que deve servir de plataforma social e ética àquela Europa que atingiu os lugares mais altos da ética, da filosofia e da civilização: uma afronta ao pensamento sério europeu e uma traição aos nossos antepassados. Instalada a sensura mediática e do politicamente correcto evitam qualquer discussão séria. O podium das nossas praças públicas é ocupado por intelectuais ou pseudo-intelectuais marxistas e acólitos políticos e religiosos. O que interesse não é o saber mas a opinião. ”Estrangeirados” e desacautelados põem à disposição a civilização ocidental esvaziando-a da sua herança judaico-cristã, alheios a Platão, Aristóteles e à história da filosofia europeia, exterminam a sua identidade subterfugiando-se numa confusão multicultural abandonadndo o campo ao esoterismo e ao islão. Querem uma Europa à la France do séc. XVIII, laicista ateia , sem alma, compatível com o islão e, quando muito, com uma religião egocentrista à la carte: racionalismo e irracionalismo de mãos dadas. Assiste-se à tentativa de se instaurar um projecto de União Europeia politeista esquecendo que o garante da pluralidade cultural e do universalismo foi apenas possível com o monoteismo, o monoteismo judaico-cristão. Não chega só a apologia da razão nem só a da religião. No dizer de Razinger a política é o reino da razão moral, o reino do presente e não o reino do futuro no que ele tem de transcendente.



Um Papa Alemão nos Estilhaços da Luta Cultural

Na Alemanha, coração da Europa, o processo da descristianização e a saudade pelos antigos deuses bárbaros em rivalidade com a mundivisão cristã são evidentes. A defesa do mundo nórdico à custa do mundo latino, a defesa do politeismo contra o monoteismo não são apenas práticas de Verdes e duma certa esquerda à la Joscker Fischer, Con-Bendit e Schröder mas de muitos outros que vivem do sistema e da demagogia.

Numa altura em que o espírito da época tudo escraviza, 100 cardeais elegeram um homem que está para todo o mundo na sua missão de unidade e de renovação. As peregrinações espontâneas de pessoas para Roma e o interesse mundial testemunham a saudade dos fieis por sentido e constituem um desafio ao Papa, à Igreja e um apelo à ciência e à política. Ele, além de defender a fé terá que convencer, o que não é fácil num tempo em que a sensualidade se quer dogmaticamente impôr. Bento XVI, foi mundialmente muito acolhido; na Alemanha, o país de Lutero em que o número de católicos e de protestantes são iguais, o Papa é mais contestado atendendo à disputa e à luta cultural sempre presente nos media e na sociedade. A exigência de abertura da igreja no sentido de dar maior relevo ao papel da mulher e à unidade dos cristãos dominam a opinião pública. Por isso Ratzinger era visto como o mestre repressor a nível ecoménico pelo facto de defender a primazia da Igreja Católica e dos seus princípios e de ser contra a ordenação de mulheres e contra o aborto. Facto é que o ecomenismo não pode reduzir a igreja católica a uma igreja evangélica. Isto iria contra o pluralismo.

Este papa não é nenhum fundamentalista mas sim um conservador intelectual lúcido que se empenha na defesa da paz e da justiça. É natural que 87% dos alemães esperem reformas na Igreja. O movimento católico reformista “Nós somos Igreja”(Wir sind Kirche) afirma que a Igreja “não pode continuar assim fechada aos problemas sociais”.

Ratzinger foi perito no Concílio Vaticano II(1962-1965) e era defensor do programa “Aggiornamento”, aproximação da Igreja com o mundo moderno. Em Tübingen Joseph Ratzinger partilhava a cátedra em dogmática católica com Hans Küng. Mais tarde houve desacordo entre os dois e Ratzinger passou em 1969 para a universidade de Regensburg sendo eleito arcebispo de Munique em 1977 e em 1981 Prefeito da Congregação da Fé no Vaticano (uma espécie de tribunal constitucional). Seus inimigos apostrofavam-no de carro blindado de Deus, de grande inquisidor e de Rottweiler de Deus, ao confrontarem-se com a sua capacidade intelectual científica a nível de visão e de argumentação. Ratzinger foi sempre um céptico relativamente ao iluminismo e consequentes ideias modernistas que conduzem a um liberalismo sem rédeas; foi uma crítico forte do carácter marxista da teologia da libertação; a fé católica orienta-se não só pela bíblia (como nos reformadores) mas também pela tradição da igreja; sabe que a ordenação de mulheres corresponderia a um maior distanciamento da igreja ortodoxa; ele orienta-se mais pelos padres da igreja de espírito platónico como Agostinho e Boaventura do que pelos da linha aristotélica como Tomás de Aquino; quanto à colegialidade Ratzinger era contra um centralismo exagerado de Roma em favor das igrejas locais; quanto à guerra e à paz ele opta pelo pacifismo, visto como programa no seu antecessor Bento XV e na fé do Novo Testamento que não conhece revolucionários mas testemunhas da fé; Razinger acentua a primazia de Roma e a celebração de liturgias em comum; quanto à SIDA defende que o melhor meio contra ela é o combate à pobreza e a fidelidade matrimonial; quanto à infalibilidade defende-a em questões de fé e de moral; na ciência defende a precedência do magistério perante a liberdade da teologia (contra teólogos que em suas cátedras querem falar ex catedra contra quem os colocou na cátedra); purgou o marxismo da teologia da libertação que ao defender o uso do poder militante corria o risco de se tornar uma religião política e militante tal como é o caso da religião muçulmana na sua essência.

Muitos esperam que o cardeal Razinger ao passar da missão de defensor da fé para Papa inicie um processo de mudança.

A maior parte das pessoas forma o seu juízo de valor na base das letras gordas dos jornais. Por outro lado os comentadores vivem do comentário e não transmitem, geralmente, o pensamento autêntico, atendendo também ao público alvo que querem atingir e à complexidade de uma discussão profunda. Nesse sentido recomendo a leitura do brilhante Razinger que como pessoa simples e humilde se expressa muito simples e claramente nos seus livros, sobre os problemas mais actuais: “Sal da Terra”(Salz der Erde), “Deus e o Mundo”(Gott und die Welt) (estes dois em forma de entrevista), e Valores em Tempos de Mudança (Werte in Zeiten des Umbruchs), Introdução no Cristianismo(Einführung in das Christentum) são livros indispensáveis para quem quiser avaliar, pensar por si e perceber um pouco da Europa, do cristianismo e da sua filosofia não se limitando apenas ao folclore. Este papa na continuação duma Igreja que deu forma à Europa aparece no momento oportuno em que esta se encontra numa odisseia.



António da Cunha Duarte Justo

(Teólogo e pedagogo)

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Ps. Artigo à disposição desde que respeitada a referência ao autor